PARADIGMAS DA EDUCAÇÃO E A INTERNET NA ESCOLA

Por Mílada T. Gonçalves
Pesquisadora do CENPEC - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária.


Quem já parou para pensar no modelo de comunicação que vivenciou na escola, em casa? E no modelo de comunicação em que estamos inseridos ao entrarmos em contacto com a televisão, o jornal, o rádio?
A maioria dos processos de comunicação que vivenciamos no nosso quotidiano é o processo que chamamos de modelo de comunicação em estrela (a imagem é sugestiva). Nesse modelo, trabalha-se com um único emissor e diversos receptores.
A própria escola surgiu baseada no modelo de comunicação em estrela (um único emissor e diversos receptores): disciplinas compartimentadas, campos delimitados, aprendizagem individual com pouca ou nenhuma negociação de sentido, o professor como emissor da informação e o aluno como receptor.
Deve ficar claro que o paradigma da comunicação não depende, exclusivamente, do meio em que esta se dá, mas sim do uso que se faz dos meios. O que se faz com a fala, o livro, o giz, a televisão, o rádio, o computador é que define qual é o paradigma da comunicação que está em jogo. E é por isso que o filósofo francês Michel Sèrres afirma que "As novas tecnologias não trazem novos desafios à educação".
Na verdade, os desafios que a escola de hoje enfrenta são antigos e independem das tecnologias. Pois é, o grande desafio da escola, mais do que utilizar tal ou qual recurso tecnológico, é derrubar o paradigma da comunicação em estrela, como alguns educadores começaram a fazer desde o final do século XIX, por meio de métodos e concepções baseados na interacção e negociação de sentido, independentemente das tecnologias que dispunham em seu quotidiano.
Por exemplo, o educador francês Celestièn Freinet, no início do século XX, defendia uma escola centrada na criança, considerada como parte de uma comunidade. Em sua metodologia, o educador introduziu a Técnica de Impressão, na qual as crianças aprendiam essa técnica e reproduziam textos, elaborados pelos próprios alunos. Nesse tipo de actividade, prevalecia o espírito cooperativo, e os trabalhos eram apresentados, discutidos e impressos pelas crianças. Os textos eram agrupados com o objectivo de criar um Diário de Classe e um Jornal Escolar.
Desta forma, a escola começou a ensaiar o que chamamos de modelo de comunicação em rede (a imagem também é sugestiva). Neste modelo, trabalha-se com muitos pontos interligados, e todos são emissores e receptores de informação.
As invenções do século XIX e XX na área de tecnologias de comunicação e de informação criaram um quotidiano permeado de novas linguagens e de novas possibilidades de comunicação. Vimos o surgimento do computador pessoal (PC), da conexão de vários computadores a um servidor (Intranets) e da rede mundial de computadores, a Internet, que, desde a década de 90, com a popularização da World Wide Web (WWW), vem ganhando grande espaço em nossas vidas. O mundo de hoje requer do jovem (e de todos nós) a capacidade de se comunicar com um número cada vez maior de pessoas, de processar dados e informações em maior quantidade e com maior velocidade.
O crescente acesso aos meios de comunicação também possibilita que a produção e a emissão das informações sejam feitas por mais atores. Vemos o crescimento de canais de televisão, da produção de vídeos, das rádios educativas, de jornais locais... E é neste ponto que a Internet vem facilitar, de forma extraordinária, o aumento da diversificação dos pontos emissores de informação.
O paradigma da comunicação em rede também questiona a própria estrutura do conhecimento e o modo como a escola trabalha. A abordagem por disciplinas vem perdendo força em relação a abordagens interdisciplinares, capazes de responder mais apropriadamente ao modo de criar significados de uma geração que já vive o paradigma de comunicação em rede. Por isso é que as disciplinas vêm sendo forçadas a se integrarem, e os processos de aprendizagem devem levar os alunos a se envolverem mais em projectos de estudo a partir de temas com abordagens múltiplas e com a produção de resultados.
Querendo enfrentar esses desafios, o educador encontrará na Internet um meio propício para a efectivação do modelo de comunicação em rede, uma vez que:
- O computador conectado à rede pode ser utilizado como um recurso para o desenvolvimento pessoal do professor, onde ele busca sua própria formação continuada e conteúdos de seu interesse.
- O educador pode integrar comunidades virtuais de troca e de aprendizagem, trocando informações com outros educadores.
- O educador pode construir roteiros cognitivos para seus alunos a partir de hipertextos e da selecção, recorte, organização e edição de informações colectadas na rede.
- O educador pode avaliar o desenvolvimento do aluno, acompanhando o processo de construção do conhecimento a partir de roteiros cognitivos orientados pelo professor ou definidos pelo aluno (por exemplo, com o registo dos caminhos de busca e pesquisa em sites na Internet e sua posterior problematização ou com o processo de construção de um texto).
- As produções dos alunos e educadores podem ser publicadas na Web, ficando disponíveis, gratuitamente, para o acesso de qualquer parte do mundo.
Portanto, inúmeras actividades podem ser desenvolvidas tendo a Internet como fonte de pesquisa ou como locus de produção de conhecimento.
Por fim, outro aspecto bastante simples mas muito importante, e que a escola não pode ignorar, é o interesse que os alunos têm em manipular e explorar o ciberespaço. Para a escola, que há tanto tempo reclama da falta de interesse dos alunos, está aí uma oportunidade de reverter esse quadro. O educador que conseguir encarar a Internet como sua aliada, estará à frente daqueles que a encaram como um problema.