AS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO: UTILIZAÇÃO PELOS PROFESSORES

por Jacinta Paiva

Introdução


Em Portugal, muitos passos foram dados, nos últimos anos, quer no apetrechamento das escolas em hardware, quer na formação em TIC dos nossos professores. Temos, porém, a noção do longo caminho que há ainda a percorrer para que a integração das TIC seja verdadeiramente transversal nos currículos e feita de forma sistemática e planeada, em vez de pontual e espontânea.
Partimos do princípio que o uso das TIC em contexto educativo é hoje uma mais valia para os professores delas entusiastas, em comparação com aqueles que ainda lhes resistem. É, por isso, necessário conhecer o que sentem e praticam os professores relativamente às TIC no ensino. Este é o grande objectivo deste trabalho. Pretendemos conhecer de forma quantificada como os professores portugueses usam (ou não usam) as TIC em benefício próprio e, principalmente, dos seus alunos.
Abordaremos, de forma sucinta, as vantagens do uso das TIC no ensino em geral. Apresentamos os procedimentos que tivemos em conta para lançar o estudo de campo baseado num questionário preenchido por professores. A descrição do estudo será breve, deixando lugar privilegiado aos resultados e às principais conclusões.
As análises e conclusões aqui apresentadas referem-se ao ano lectivo de 2001/2002 e correspondem às respostas de 19337 professores de uma amostra de 26707 professores de 2499 escolas de todas as tipologias e de todos os níveis de ensino à excepção do superior, das redes pública e privada, de Portugal Continental. Note-se a excelente taxa de resposta obtida neste estudo: 72,4% para os professores e 74,2% para as escolas. Estes números revelam, sem dúvida, o empenho dos professores na resposta ao questionário que lhes foi apresentado.
Para esta publicação seleccionámos as tabelas e gráficos mais representativos dos resultados e das principais conclusões. Visámos permitir, à comunidade educativa em geral, uma leitura acessível deste documento, centrada no essencial.
A descrição e os resultados pormenorizados de todo o trabalho desenvolvido, podem ser consultados em:
http://www.dapp.min-edu.pt/nonio/docum/document.htm

Relativamente às TIC e à sua implementação nas escolas, deixamos uma nota final. Não basta achar que algo é bom: é preciso teorizar, passar à prática e, mais ainda, é necessário medir, avaliar. Só avaliando podemos seleccionar as melhores ferramentas e metodologias e promover o progresso. (PERRATON, 2000). (...)

Vantagens do uso das TIC no ensino
O objectivo desta secção não é o de fazer uma reflexão aprofundada do uso das TIC nas escolas. Esta problemática, aliás, tende, em certo sentido, a esgotar-se, porquanto o computador e as TIC estão inexoravelmente presentes no nosso quotidiano e nas nossas actividades e são, regra geral, sinónimo de qualidade de vida.
Uma escola que não recorra, ou melhor, que não integre os novos meios informáticos, corre o risco de se tornar obsoleta. Como diz Adell (ADELL,1997): “As tecnologias de informação e comunicação não são mais uma ferramenta didáctica ao serviço dos professores e alunos... elas são e estão no mundo onde crescem os jovens que ensinamos...”.
Neste estudo, ao falarmos de TIC no ensino, estamos a considerar duas vertentes:
– O contexto pessoal, isto é, a forma como professores e alunos usam o computador como pessoas individuais e não ligadas pela relação pedagógica.
– O contexto educativo, disciplinar ou não, em que há interacção directa do professor com os alunos e com a “máquina”. Aqui se inclui, igualmente, a relação pedagógica professor/aluno fora da sala de aula, quepode ocorrer nos mais variados contextos, incluindo comunicação electrónica com a família dos alunos.
No contexto pessoal, as vantagens dos computadores prendem-se com o ganho de tempo na execução de tarefas rotineiras (tais como preparar testes, elaborar fichas, realizar trabalhos de casa, fazer pesquisas, tratar dados, fotografia digital e imagem, trocar informação via e-mail, etc.), bem como com a possibilidade de formação a distância, participação em trabalhos e experiências conjuntas à escala nacional e internacional, etc.
No contexto educativo, são de referir, entre outras vantagens, a interacção diferenciada que o professor pode estabelecer com os seus alunos quando recorre a software específico, a pesquisa on-line dirigida, a possibilidade de comunicação por e-mail para tirar dúvidas, enviar ficheiros, conversar com os encarregados de educação, etc.
(...) De facto, todos conhecemos, ou pelo menos intuímos, os benefícios da sociedade de informação. Mas as barreiras para o uso das TIC em contexto educativo são ainda muitas. Podemos agrupá-las em duas classes: uma que se prende com o parque informático das escolas e outra que tem a ver com os constrangimentos do(s) agente(s) educativo(s). Ambas são passíveis de constituir álibis perfeitos para tudo continuar “como dantes”, não obstante assistirmos a um substancial apetrechamento em equipamento informático das nossas escolas (NÓNIO, 2001).
Em relação à primeira dificuldade, centrada no hardware, a maioria das escolas do país tem um razoável número de computadores e periféricos ou está em vias disso, excepção feita aos jardins-de-infância. No caso das escolas do 1º ciclo, que dependem das autarquias, em termos de instalações e manutenção dos equipamentos, o processo está em marcha, pois a maior parte dos protocolos (por exemplo com: o Ministério da Ciência e Tecnologia, as autarquias, os estabelecimentos do ensino superior), foi executada no sentido do apetrechamento das escolas com pelo menos um computador e ligação à Internet. Os jardins-de-infância não estão cobertos, de momento, por nenhuma medida sistemática e generalizada de apetrechamento em hardware, não se prevendo quando tal acontecerá.
Mas a quantidade de meios nada nos diz sobre o que se faz com eles, do que está a mudar na Escola e nas práticas lectivas. É então preciso ir acompanhando o processo para que ele não seja só burocrático, ficando pelos números, mas chegue àqueles que urge beneficiar: os alunos, pela promoção dos professores.(...) Independentemente de quaisquer enquadramentos sobre teorias educativas, modelos sócio-políticos ou visões da escola, nunca é de mais enfatizar a inevitabilidade do uso das TIC em contexto educativo.
Usar as TIC na escola coloca em jogo dois intervenientes principais, para além da “máquina”: o professor e o aluno (não esquecendo os encarregados de educação e toda a envolvência social). É de todos que depende o sucesso da missão educativa!
O que pensam, como fazem e que expectativas têm os nossos professores e alunos são realidades não estudadas em larga escala em Portugal. É uma dessas vertentes que este trabalho faz emergir, a dos professores.
(...)Muitas ilações podem ser retiradas deste estudo. As questões em relação às quais procurámos conclusões foram as seguintes:
– Como utiliza o professor as TIC, a nível pessoal?
– Como utiliza o professor as TIC na preparação da sua actividade docente?
– Como utiliza o professor as TIC directamente com os alunos?
– Que dificuldades, constrangimentos e expectativas têm os professores no contexto da utilização pedagógica das TIC.
Estabelecemos 12 conclusões principais, remetendo para a versão integral deste trabalho as análises mais pormenorizadas.

Seguem-se as referidas conclusões:

A amostra estudada apresenta as seguintes características:
1.1. É maioritariamente feminina;
1.2. A faixa etária dos 18 aos 35 anos está mais representada no terceiro ciclo e secundário do que nos outros níveis de ensino. No primeiro ciclo a população docente está mais concentrada na faixa etária dos 46 aos 55 anos;
1.3. Os professores são na sua grande maioria profissionalizados (89%) e mais de metade fez a sua formação inicial no ensino superior universitário (58%);
2. A grande maioria dos professores (88%) possui computador pessoal e bastantes periféricos, sendo residual a percentagem de professores que têm computador e dele não fazem uso;
3. 91% dos professores usam o computador como ferramenta pessoal de trabalho e, destes, 53% usam-no bastante para realizar múltiplas tarefas. 16% dos professores despendem entre 5 a 10 h de trabalho semanal com o computador, 13% mais de 10 h semanais de utilização e os restantes menos de 3 horas semanais. É curioso comparar estes dados com os dados do INE (2001) referidos na página 18 (nota 5) que sugerem que dos 27% de portugueses que tinham computador (um em cada quatro), 58% faziam dele uma utilização média diária inferior a uma hora.
4. A utilização do computador para fins pessoais depende da idade, do sexo e dos níveis leccionados.
4.1. Os homens usam mais o computador para realizar múltiplas tarefas; 4.2. São os professores mais jovens que usam o computador pessoal para realizar múltiplas tarefas;
4.3. São os professores do terceiro ciclo e secundário que mais usam o computador para fins pessoais;
4.4. São os professores estagiários que mais utilizam o computador para realizar múltiplas tarefas;
4.5. São os professores com formação universitária que mais usam o computador para fins pessoais e para realizar múltiplas tarefas;
5. A Internet e o e-mail são bastante usados pelos professores (65% a Internet e 44% o e-mail);
5.1. A Internet é mais usada por professores do sexo masculino;
5.2. A Internet é usada com frequência para preparar aulas, principalmente no 3º ciclo e no ensino secundário;
5.3. Há uma forte utilização doméstica da Internet: dos 65% de professores que a usa, 74% fá-lo em casa e 45% na escola.
5.4. O e-mail é usado por 44% dos professores da amostra e destes com grande prevalência por professores do sexo masculino;5.5. Os professores usam muitíssimo pouco o e-mail com os alunos (apenas 9,7% dos 44% dos professores que usa e-mail o faz) sendo de 40% a percentagem de utilizadores de e-mail entre colegas e só de 8% para comunicação com a escola.
6. Os professores usam bastante o computador na preparação de aulas (81%), excepção feita aos do ensino pré-escolar. Esta utilização incide, em particular, na elaboração de fichas ou testes e na pesquisa na Internet de assuntos relacionados com a disciplina.
6.1. A utilização de programas de apresentação como o Power Point é escassa (16%). Este valor inclui os professores de informática.
7. A auto-formação ainda é a maior fatia do modo como é feita a iniciação ao uso das TIC (49%);
7.1. A auto-formação está relacionada com utilizações, em quantidade e qualidade, do computador, no ensino;
7.2. Quem mais recorre às acções de formação do ME são os professores do 1º ciclo;
7.3. Regra geral, os professores que frequentaram acções de formação sobre computadores fazem delas um balanço positivo. Destes, a maioria afirma terem sido positivas (62%), ou mesmo muito positivas (19,6%).
7.4. Parece haver poucas acções de formação em âmbitos específicos das respectivas disciplinas. De facto e para os 52% dos professores da amostra que realizaram acções de formação, as acções frequentadas foram maioritariamente de âmbito generalista (83%): apenas 10% foram de âmbito específico disciplinar e 6% de âmbito generalista e específico da sua disciplina.8. 26% dos professores usam o computador com os seus alunos, dentro e fora da sala de aula.
8.1. Destes 26%, são os professores do 1º ciclo (42%) os que mais utilizam o computador em contexto educativo, seguidos dos do 3º ciclo/secundário com 24%.
8.2. (...) Quando associamos as respostas dadas às questões: “Utiliza o computador com alunos em actividades lectivas?”, “Quantas horas por semana trabalha pessoalmente com o computador?” e “Usa bastante o computador para realizar múltiplas tarefas?”, com os níveis leccionados, podemos estabelecer algumas relações entre estas variáveis. Inferimos, por exemplo, que um baixo número de horas de trabalho com o computador está relacionado com a não realização de múltiplas tarefas.
Também o sim a “Usa bastante o computador para realizar múltiplas tarefas?” está mais relacionado com os professores que leccionam 3º ciclo e ensino secundário (3/S) do que com os de qualquer outro nível de ensino.
8.3. Os professores do sexo masculino utilizam ligeiramente mais o computador em contexto educativo.
8.4. A idade parece não ser factor determinante na utilização do computador em contexto educativo, excepção feita aos professores com idades superiores a 56 anos.
8.5. Há uma ligeira predominância do uso do computador em contexto educativo por professores estagiários e não profissionalizados.
8.6. Os professores que mais usam o computador em contexto educativo são os que tiveram auto-formação ou frequentaram acções de formação.
9. As aplicações, actividades e contextos do uso das TIC podem dizer muito sobre a qualidade da utilização em contexto educativo e a preparação do professor para essa utilização.
9.1. As aplicações TIC mais utilizadas em todos os níveis de ensino (menos no pré-escolar, onde prepondera o software de processamento de imagem) são o processador de texto e a Internet, seguidas do software pedagógico.
9.2. Os tipos de actividades realizadas relacionam-se com as aplicações TIC e são a consulta e pesquisa de informação, a produção e edição de informação e as actividades recreativas/jogos.
9.3. Os contextos onde mais se utilizam as aplicações TIC referidas são, o disciplinar e o trabalho de projecto seguidos dos clubes e núcleos.
10. Os professores, quase sem excepção, manifestam vontades e necessidades de formação, mais ou menos distribuídas por todas as aplicações informáticas, para todos os níveis de ensino e para todas as idades, de uma forma equitativa.
11. Os professores referem, em geral, atitudes mais positivas do que negativas face às TIC.
11.1. 94% dos professores da amostra gostariam de saber mais sobre o uso das TIC em contexto educativo.
11.2. 78% acham que as TIC os ajudam na sua prática lectiva.
11.3. 68% dos professores sentem que o uso das TIC lhes exige novas competências e, muitos deles, revelam conhecer mal as vantagens das TIC em contexto educativo.
11.4. 49% dos professores entendem que os alunos dominam melhor os computadores do que eles próprios.11.6. Para a maioria dos professores (43%), o obstáculo mais forte à implementação das TIC no contexto educativo é a falta de meios técnicos. 29% dos professores apontam a falta de recursos humanos como obstáculo maior para a implementação das TIC.
12. Qualidade da utilização.
12.1. Este estudo possui a virtude de ter inquirido muitos professores e, como tal, obtido números generalizáveis e fiáveis. Mas, ficam por avaliar muitas nuances sobre a qualidade da utilização das TIC em contexto educativo, por parte dos professores.
12.2. Como vimos atrás, os professores do primeiro ciclo (nível de ensino que mais usa o computador em contexto educativo) e pré-escolar apresentam baixas utilizações do computador a nível pessoal e para preparação de aulas. Estas relações não se podem no entanto deduzir do gráfico 39, abaixo. Porém, dele se infere, a relação dos professores do 3º C/S com as múltiplas utilizações pessoais do computador, a elaboração de fichas e testes e a posse de computador pessoal.Estas 12 conclusões expressam alguns aspectos importantes, sendo de realçar, no nosso ponto de vista, algumas preocupações mas, também, algumas notas de optimismo.

Assim: É verdade que se utiliza pouco o computador em contexto educativo e que há indícios de que a sua utilização não seja a mais sistemática, planificada e pedagogicamente cuidada.
– No ensino pré-escolar utiliza-se muito pouco as TIC em contexto educativo podendo tal facto dever-se à limitação do parque informático.
– Nos 2º e 3º ciclos e ensino secundário era desejável que o uso do computador, em contexto educativo, fosse mais frequente. Se descontarmos os professores de informática, a percentagem de professores destes níveis rondará os 20%.
– Poderá dizer-se que um esforço de formação significativo faria inflectir a situação. Atente-se no facto dos professores do primeiro ciclo serem os que mais acções de formação do ME realizam e, em simultâneo, os que mais utilizam o computador em contexto educativo. Porém, essa formação não leva estes professores a uma maior utilização pessoal, a um maior número de horas de utilização e à franca utilização do computador para preparar aulas. Por outro lado, os professores que se iniciaram na informática por auto-formação, tipicamente mais jovens, utilizam o computador com mais frequência e qualidade. (...)
– A não realização de acções de formação do ME, em TIC, está relacionada preferencialmente com os professores do 2º ciclo. Era importante, a este propósito, reflectir sobre as modalidades de formação existentes para os diferentes níveis de ensino, nesta área. Igualmente de ponderar seriam as motivações para a realização destas acções por parte dos professores, o seu âmbito e cobertura.
– A relação entre o “sim” ao desconhecimento das TIC e os diferentes níveis de ensino é difícil de concluir a partir deste gráfico, havendo uma aparente proximidade desta variável, com o ensino pré-escolar.
– Embora os professores usem, com alguma frequência, os computadores e, em particular a Internet, é muito fraco o uso de e-mail com alunos (apenas 10% em 44% da amostra). Ou seja, pode adivinhar-se uma utilização do computador ainda descentrada do aluno e da sua família.
– Como notas positivas, enaltecemos, em particular, a excelente taxa de resposta a este questionário. Com efeito, mais de 70% dos professores responderam o que, de alguma forma, revela interesse pelo assunto. O grande uso das TIC por parte dos professores mais novos e, em particular, dos professores estagiários é, também, um sinal de confiança. A utilização quase generalizada, pelos professores, das modernas ferramentas de comunicação, Internet e e-mail é, também, um bom indicador. A utilização intensa de computadores no primeiro ciclo é, também, uma nota positiva, em consonância com o razoável parque informático naquele nível de ensino. São igualmente encorajadoras as atitudes dos professores em relação a alguns aspectos das TIC no ensino: a maioria dos professores enfrenta positivamente estes desafios e reconhece a necessidade de formação e apoio para a sua promoção na utilização das TIC. Esta predisposição positiva face às novas tecnologias é condição fundamental de aquisição de competências básicas em TIC e de mudanças reais no terreno escolar. Muitas destas conclusões poderão ser reforçadas com questionários mais pormenorizados e/ou entrevistas para uma amostra mais reduzida de professores.
Percebemos que a utilização das TIC não se limita às questões de natureza educativa, mas ultrapassa-as na dinâmica da sociedade e na organização do Estado. Trata-se de uma problemática transversal que não se limita a números, seja de computadores, de utilização ou mesmo de acções de formação. A mudança da situação é um imperativo nacional e europeu. Sabemos que a existência de um bom parque informático na escola não implica a sua utilização discernida e sistemática. Verificamos que uma formação acrescida não implica obrigatoriamente muita qualidade na utilização das TIC. Estas ideias são corroboradas por outros estudos e documentos, particularmente o manual “Estratégias para a Acção – As TIC na Educação” (NÓNIO, 2002).

Mudanças e perspectivas para o uso das TIC na Escola
Pensamos que se devem manter alguns “padrões clássicos” de educação, que passam pela manutenção de aulas com questões, pela elaboração de testes, de trabalhos de casa, pelo uso de manuais escolares, mas tudo isso conjugado com o uso sistemático do computador. Não se trata de criar tudo de novo à custa das TIC, mas de inovar as formas de concretizar os objectivos estabelecidos. As aulas continuarão a ser de pergunta/resposta mas quem responde às dúvidas é o aluno com a ajuda da Internet, os trabalhos de casa poderão ser reforçados individualmente quando enviados e corrigidos por e-mail, as dúvidas poderão ser “tiradas” à hora marcada com apoio complementar à distância: a relação professor/aluno pode ser reforçada quando a família do aluno comunica com o professor por e-mail. Abrem-se portas à concretização de um manancial de procedimentos que um professor “clássico” conhecia mas que, sem recurso às TIC, dificilmente conseguiria gerir e rentabilizar com proveito próprio e dos seus alunos. A formação dos professores no domínio das TIC, como é notório, revela-se como uma autêntica urgência. Ainda que não seja certo que mais oportunidades de formação correspondam a maior entusiasmo dos professores, há que oferecer um vasto e variado conjunto de acções de formação de qualidade no domínio das TIC a toda a comunidade de professores. Como sugere Atinkson, para termos professores empenhados e despertos, devemos incluir, no seu programa de formação, as novas tecnologias, em dois sentidos: no sentido de valorizar as pedagogias clássicas e no sentido de os fazer entender que as TIC não são antagonistas dos métodos tradicionais, mas antes os dois se interpotenciam (ATINKSON, 1997).
Poderemos ser acusados de centrar quase em exclusivo no professor a melhor ou pior implementação das TIC na Escola. Seria simplista fazê-lo e, a este propósito, citamos Lawson e Comber que consideram o problema da inclusão das TIC nos currículos dependente, para além do professor, de três factores: da existência de coordenadores de TIC na Escola e do seu papel; da atitude da gestão das escolas face à prioridade dada às TIC em detrimento de outras áreas e, finalmente, da infra-estrutura informática da própria escola (LAWSON & COMBER, 1999).

Resumimos também, segundo Wild um conjunto de dificuldades que podem levar ao não uso das TIC em contexto educativo e que nos parece, no caso da escola portuguesa, aplicável e actual (WILD, 1996).
1 – Falta de oportunidades para usar os computadores regularmente, criando uma continuidade pedagogicamente benéfica.
2 – O facto de muitos alunos de estratos sócio-económicos baixos não possuírem computador. Este dado é relevante em Portugal pois, se repararmos nos números (citados em 3, página 19) sobre a percentagem de computadores na população portuguesa em geral, esta era de 39% em 2001 (MATA, 2002).
3 – Recursos informáticos escassos na escola (em Portugal, é o caso do ensino pré-escolar).
4 – Stress do professor.
5 – Falta de segurança e confiança para usar as TIC.
6 – Falta de conhecimento sobre o verdadeiro impacto do uso das TIC em contexto educativo.
7 – Poucas experiências com TIC na formação de professores quer inicial quer durante a actividade (WILD, 1996).

A formação de professores é uma área muito sensível e “cúmplice” da problemática deste estudo. São os próprios propósitos do Estado português, em coerência com as políticas europeias, que enfatizam este aspecto. De novo do parecer nº2 /98 do Conselho Nacional de Educação, sobre a Sociedade de Informação, afirma, a este propósito: “...A preparação dos professores para o uso apropriado das TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) no processo pedagógico assume assim a maior importância e urgência. Importa eliminar o paradoxo de o grupo profissional responsável pela preparação da juventude de hoje para o século XXI resistir à tecnologia do século XXI. Tal resulta, em grande parte, de não terem os professores recebido o treino adequado para integrar estas tecnologias no ensino.” A International Society for Technology in Education (ISTE) recomendava em 1992 que todos os professores deveriam estar ou ser preparados nas seguintes áreas:
a) Conceitos e operações básicas em informática. Os professores deveriam usar o computador e periféricos, saber gerar e manipular dados, etc.
b) Uso de tecnologia aos níveis pessoal e profissional. Os professores deveriam usar as novas tecnologias para comunicar, colaborar, fazer pesquisas e resolver problemas.
c) Aplicação das novas tecnologias em contexto educativo. Os professores deveriam usar computadores e TIC para apoiar a instrução na sua área e no seu nível (CZERNIAK, C. et al. 1999).
Para atingir metas como estas, ou similares, são necessárias reformas que nem sempre surtem os resultados desejados. Estas situações acontecem porque, regra geral, as reformas são realizadas de cima para baixo, não tendo em conta, na maior parte dos casos, determinados factores tais como o que esperam e em que acreditam os professores acerca do uso das TIC nas escolas. Se partirmos do ponto de vista do sujeito em quem se vai operar a mudança então, esta, tornar-se-á efectiva (CZERNIAK, C. et al. 1999).

Estamos absolutamente em sintonia com esta forma de encarar a formação de professores e talvez a devamos pensar mais na perspectiva de “um bolo de necessidades específicas”: da escola, dos alunos e dos professores. Teremos, com certeza, maiores probabilidades de sucesso, pois partimos de baixo para cima, do aluno concreto, do professor concreto, da escola concreta, para introduzir as mudanças possíveis nessa matéria-prima específica.
Cornu e Marzin vão mais longe e preconizam uma mudança mais radical: que as TIC sejam incluídas verdadeiramente no ensino dos alunos universitários (e não apenas na componente didáctica dos cursos) para se tornarem ainda mais efectivas. Desta forma os futuros professores reproduziriam, na sua maneira de ensinar, a forma como foram ensinados (CORNU e MARZIN, 1999).
Este aspecto revela-se importante pois, se os professores não são informados, não contactam e não experimentam as potencialidades das TIC, dificilmente se irão sentir atraídos por este mundo. Este aspecto leva-nos a preconizar uma formação em TIC conjugada uma formação científica na área disciplinar, ou seja um “dois em um”. Nada melhor do que aprender a tecnologia com exemplos de situações conhecidas da prática lectiva de cada professor.

É hoje um facto que noções como continuidade, estabilidade, estratégia de longo prazo e abrangência das medidas, são essenciais a projectos que envolvam a introdução das TIC na Escola. A realidade das TIC assim pensada já está presente no novo ensino e na aprendizagem. A prová-lo referimos novamente o documento “Estratégias para a acção - As TIC na educação” (NÓNIO, 2002) que deve, a este propósito, merecer uma leitura atenta.

Bibliografia
ADELL, J. (1997) – Tendencias en educación en la sociedad de lás tecnologias de la información. EDUTEC, Revista Electrónica de Tecnologia Educativa. 7 (1997).
ATKINSON, T. (1997) – Pedagogical considerations in the application of new technologies to teacher education, European Journal of Teacher Education. 20:1 (1997) 101.
CORNU, B. & MARZIN, P. (1999) – Virtuality in teacher education; theory, practice, didactics. [online] [consultado em 2000-06-03]. Disponível em: http://www.elsevier. homepage/sag/cal99/output/abs12.htm.
CZERNIAK, C. et al (1999) – Teachers’ beliefs about using educational technology in the science classroom. International Journal of Educational Technology. 1: 2 (1999).
INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA (INE) (2001) – Inquérito à ocupação do tempo (2001).
LAWSON, T. & COMBER, C. (1999) – Superhighways Technology: personnel factors leading to successful integration of information and communication technology in schools and colleges. Journal of Technology for Teacher Education. 8 (1999) 41.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (2002) – DAPP – Dados estatísticos: http://www.dapp.min-edu.pt/estat/01_02/ep_comput.html
MATA, J. (2002) – Sociedade de Informação: Principais indicadores estatísticos, Observatório da Ciência e da Tecnologia, Ministério da Ciência e da Tecnologia (2002).
NÓNIO (2002) – Estratégias para a acção - As TIC na educação. Lisboa, Programa-Nónio Século XXI, Ministério da Educação - DAPP. (2002).
PERRATON, H. (2000) – Choosing Technologies for Education. Journal of Educational Media. 25: 1 (2000) 31.59
WILD, M. (1996) – Technology Refusal: rationalising the failure of students and beginning teachers to use computers. British Journal of Educational Technology. 72: 2 (1996) 134.