(retirado do blog De Rerum Natura)
Uma notícia do “Diário de Notícias” (de 9 de Setembro de 2006, que saudades do tempo em que esse diário ainda não queria imitar o estilo tablóide!) tinha um título interessante: «Professores são a última resistência às novas tecnologias». Parece haver aqui um paradoxo: a escola, que teria de preparar os alunos para o o século XXI (pois não se destina a escola a preparar para a vida?), estaria a resistir à modernização. Mas poderse- á resistir à modernização?
Salvador Dali recomendava aos jovens pintores: “Não se preocupem em ser modernos: é a única coisa que não podem evitar”.
O facto é que a escola, a nossa ou qualquer uma, tem inércia. E a nossa, por vezes, tem mais inércia do que outras. Apesar de porfiados esforços de muita e boa gente, a Internet, na escola e também na casa de muitas famílias, é ainda vista por alguns professores e educadores como uma ameaça. Pode ser, de facto, uma ameaça à aprendizagem tradicional, mas, em potência, a Internet já é ou cedo será tão vital como os livros, sem tirar evidentemente o lugar imprescindível que estes ocupam... A Internet – mais do que os computadores em si mesmos -possibilitou uma das grandes mudanças na educação: caíram as paredes da escola e a aprendizagem deixou de ter de ser local para poder ser global. Os melhores professores norteamericanos, australianos ou brasileiros podem aqui encontrar discípulos e vice-versa. Mas os modos eficazes de usar as possibilidades que a Internet oferece na educação estão ainda em larga medida por explorar... A própria Web é um fenómeno relativamente recente – é uma jovem adolescente de pouco mais de 15 anos (e não resisto a dizer que foi criada pelos físicos não para comprar produtos ou namorar à distância mas simplesmente para partilhar ficheiros de experiências científicas realizadas no CERN, em Genève) - e está ainda em vertiginosa evolução, como provam os fenómenos bastante mais recentes do Google, da Wikipedia, da Blogosfera, do You Tube. A Web é uma biblioteca de Babel em evolução rápida...
Será que os professores resistem mesmo às novas tecnologias? Vários estudos sobre Internet e educação em Portugal têm sido efectuados sobre o uso da Internet por alunos e professores. Um estudo realizado em 2002 por Jacinta Paiva, investigadora do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra, junto de cerca de 20000 professores portugueses (um dos maiores estudos jamais realizados), concluiu que já nessa altura cerca de dois terços dos professores portugueses usava a Internet (65%). Hoje o número é decerto maior. Destes a grande maioria (74%) fazia-o em casa, ao passo que só menos de metade (45%) o faziam na escola. 44% dos inquiridos utilizavam o correio electrónico (e-mail), mas apenas 10% destes o faziam com os seus ou com outros alunos (ou seja cerca de 4% do total da amostra). Como que dando razão ao título do jornal, a maioria (74%) não utilizava o computador com os seus alunos em sala de aula, ou mesmo em clubes ou em aulas de apoio.
Em resumo, o computador chegou ao professor para seu uso pessoal, por vezes quase só como processador de texto, como chegou a todo o lado na sociedade, mas ainda não chegou em força à escola. Por outras palavras, a sociedade é neste aspecto menos conservadora do que a escola.
Os números devem ter evoluído, fruto não só da democratização da tecnologia mas também de uma maior consciencialização da comunidade escolar das vantagens do “on line”(correspondendo, de resto, a alguns esforços governamentais) mas estão ainda longe quer da média da União Europeia, quer de países nórdicos como a Finlândia para os quais gostamos de olhar. Poucos depois da referida notícia foram divulgados números da União Europeia de acordo com os quais havia poucos computadores por aluno nas escolas portugueses (em comparação com a média da Europa), apesar de em quase todas elas já haver uma ligação funcional à Internet. Os governantes nacionais, mesmo quando não o admitem, ficam nervosos com a nossa débil posição em estatísticas internacionais, aqui como noutras áreas. Mas falam sempre em mudar a quantidade esquecendo-se da qualidade...
Um outro estudo, da mesma autora, realizado com alunos do básico e secundário em 2003 – com o impressionante número de cerca de 60000 alunos, apontou para a existência de 64% de alunos com computador e cerca de 36% com ligação em casa à Internet, números que não serão maus de todo. Hoje serão decerto melhores. O confronto com os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística sobre as tecnologias da informação nos lares permite uma extrapolação razoável de cerca de 50% dos alunos portugueses que têm hoje ligação à Internet em casa. Estamos ainda longe dos números da Finlândia, mas têm-se registado, sem dúvida, progressos. Segundo os dados do referido Instituto, a percentagem de casas com ligação à Internet na população portuguesa em geral, que era de 22% em 2000 e de 30% em 2001, ronda hoje os 35%. Apesar de ainda haver alguma infoexclusão, o progresso tecnológico é nítido. Como não poderia deixar de ser, pois não temos de nos preocupar em ser modernos: é inevitável.
E o que fazem os jovens com os computadores e a Internet? Aí é que a porca torce o rabo. De acordo com os mesmos inquéritos, o que os alunos mais gostam de fazer no computador em casa são jogos. Escrevem também alguns textos, mas usam pouco o “email”, principalmente nas faixas etárias mais baixas (a geração “zap” prefere a comunicação instantânea como a que é assegurada pelo Messenger). Quem mais utiliza a Internet nas famílias são os mais jovens. Por vezes, eles são privados da Internet pelos encarregados de educação como “castigo”: “Agora sais do computador e vais mas é estudar”. É sabido que a Internet, como uma gigantesca imagem caleidoscópica do mundo, tem de tudo, de tudo mesmo. Mas uma ordem desse tipo parece tão estranha como proibir a criança ou o jovem de ler um livro ou de frequentar uma biblioteca. Fossem os professores um pouco mais criativos nas tarefas escolares que solicitam aos alunos e as coisas poderiam mudar... Mas são ainda poucos os trabalhos de casa a realizar de modo criativo com o recurso à Internet. E os poucos que há são despachados pelos alunos com um mero e rápido “copy and paste”, um procedimento que infelizmente é tolerado nas nossas escolas, desde o nível mais baixo até ao mais alto. Não se educam os alunos no sentido de averiguar a credibilidade das fontes nem de atribuir o seu a seu dono! Muitos alunos dizem nos referidos inquéritos: “Gostava de poder estudar mais pela Internet do que pelos livros”. Essa afirmação, consensual nos dois géneros, é um pouco mais preponderante nos rapazes. Mas a escola parece não alimentar este desejo... O uso crítico da Internet é uma ferramenta poderosa na sociedade contemporânea e a escola devia proporcionar esse manejo, não em disciplinas de “TIC” (quando é que o Ministério da Educação acaba com essa aberração dando tempo às disciplinas essenciais?), que remetem as tecnologias para um “guetto”, mas pela integração nos currícula de todas as disciplinas. Do mesmo modo o parque informático não deveria estar confinado a uma sala (a “sala de computadores” ou mesmo a biblioteca), mas antes disperso por todas as salas. A própria evolução da tecnologia, com o alastrar do “wireless”, a generalização progressiva dos portáteis e a transformação dos telemóveis (que os alunos já trazem no bolso) em autênticos computadores, vai facilitar essa ubiquidade de meios. A Internet estará literalmente em todo o lado. E a escola vai ter de se adaptar a isso... Mas a tecnologia sozinha não é capaz de nada. O essencial da mudança pedagógica não está seguramente nela!